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Meninas, vamos ao que interessa: rolas voadoras.

Meninas, vamos ao que interessa: rolas voadoras.

Antes de qualquer coisa, um spoiler: Não estou aqui para militar, nem tão pouco para ser educada, vou apenas relatar minha experiência e eu sou só uma trouxa.

A criação publicitária é, historicamente, dominada por homens. Por mais que o cenário já esteja se alterando, ainda estamos longe de ter uma igualdade de gêneros na criação. Vemos isso no dia a dia, nas listas de shortlists de prêmios, nas fichas técnicas e também nas referências de profissionais que nos inspiramos.

Ano passado uma pesquisa revelou que 90% das mulheres já foram vítimas de assédio nas agências. Felizmente, eu fiquei surpresa. Minha curta memória me faz acreditar que nunca conheci uma mulher, e eu me incluo nisso, que tenha passado por isso. Tive a sorte de sempre trabalhar com pessoas de excelente índole, e se eu sofri preconceito por ser mulher, foi um preconceito de mim para mim mesma.

Em contraponto a isso, minhas experiências e a minha convivência com criativos e criativas me mostraram que, na maioria dos casos, as mulheres reagem de forma mais sensível e emotiva com relação ao trabalho. E quando falamos de criação, falamos sobre sentimentos. Há uns 2 anos atrás, eu me via reagindo de uma forma muito mais intensa à uma negativa do que meu antigo dupla, que nem sequer pensava em sofrer com os "nãos" que levávamos, ele apenas seguia o baile.

Criar exige, além de inteligência, audácia e coragem. Afinal, ideias nada mais são que um conjunto de experiências pessoais, de formas de pensar e de pontos de vista. E quando você apresenta uma ideia, é como se você estivesse se expondo. Você está ali, é uma ideia em cima da mesa sendo analisada. Quando ela é reprovada, uma parte de você se sentiu inferiorizada. Quando eu falei sobre o preconceito de mim para mim mesma, era sobre isso. No começo da minha carreira, na qual eu já me via em alguns casos sendo a única mulher trabalhando com criação, eu não sentia coragem de expor minhas ideias, a não ser em casos de extrema importância. Hoje, eu apresento qualquer ideia, qualquer linha de pensamento, qualquer coisa (ainda bem que tenho um diretor de criação paciente e gente boa). Imagine você quantas mulheres no mundo todo não devem ter que apresentar ideias para homens machistas em cargos de direção.

Além disso, trabalhar com criação exige que você saiba controlar sua autoestima, que estará para sempre em uma montanha russa de emoções. Em um dia você será a gênia da criação; escreverá lindamente, terá ideias mirabolantes e fará layouts deslumbrantes. No outro dia você se sentirá tão lixo que vai só esperar o caminhão de reciclagem passar pra chamar de uber.

Mas, apesar de tudo isso, ter ou não uma rola não vai fazer diferença na hora de criar. Já pensei até em fazer meu logotipo com uma rola voadora e a seguinte defesa: "ter uma rola não faz diferença, a não ser que seja uma que voa, e essa eu tenho."

Meninas, coloquem o pau imaginário na mesa. Coloquem vocês mesmas na mesa. Todo homem deveria duplar com uma mulher. Se esforcem como se não houvesse amanhã e vamos dominar o mundo, like a girl.

Um abraço.

Bruna Serves, diretora de arte da Candy Shop.

Ilustração de capa: Nicolas Corrente, diretor de arte e ilustrador da Candy Shop.

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